terça-feira, 30 de novembro de 2010

A semana das Ligas Estrangeiras no Solobasket

Guimarães - Ovarense (Foto:Cláudio Gomes)
James White brilha em Itália, primeira vitória de Allen Iverson com a camisola do Besiktas, Partiza e Cibona em crise adriática, a derrota do Ginásio e Moncho vencedor em duelo espanhol, o record de Chris Oliver na Alemanha, o equilíbrio na Liga Francesa, o regresso de Nikos Barlos com a camisola do Panionios, a liga sul-americana de basquetebol, a Liga VTB e os sucessos dos Sub-18 europeus, tudo no resumo das Ligas Estrangeiras do Solobasket.

Uma fábrica de jogadores - Entrevista a Goran Nogic, Benfica


Goran Nogic é o Coordenador da Formação de Basquetebol do SL Benfica. Nascido na Sérvia em 1971, Goran trabalhou em diversos clubes do seu país natal, onde se destaca o Partizan Belgrado. Depois de uma passagem pela Simon Frazer University (Canadá), chegou a Portugal em 1999, onde passou pelo Estoril, Imortal e Barreirense, antes de chegar ao clube da Luz. Na sua visão sobre o basquetebol português, percebe-se essa experiência acumulada em diferentes países.
 - Como está organizada a formação do Benfica? Quantos atletas, treinadores e equipas trabalham no clube?
Toda a coordenação da Formação de Basquetebol do SL Benfica, está organizada em duas vertentes: Coordenação Técnica e Coordenação de Projectos, sempre directamente apoiada pelo Director Geral das Modalidades, o Sr. Carlos Lisboa.
Ao mesmo tempo as equipas são divididas e orientadas em quatro áreas de intervenção:
1.      Captação (Equipas de Mini Basquetebol Sub-8, Sub-10 e S-12B)
2.      Preparação para competição (Equipas B, C, e Sub-12A)
3.      Equipas de competição (Sub-19f, Sub-18, Sub-16f, Sub-16, Sub-14f e Sub-14)
4.      Equipa Sub-20 (participa como equipa “B” no campeonato CNB1)
Na época em curso, o número total de atletas é de 241 jovens rapazes e raparigas, distribuídos por todos os escalões de formação, num total de 16 equipas. Com eles diariamente trabalham 15 treinadores e 4 monitores, apoiados por 14 seccionistas.
- Para ti, qual a importância dos resultados escolares na evolução de um atleta?
Há muitos exemplos de bons alunos e bons atletas, mas também há jogadores de classe top, que não tiveram sucesso escolar. De qualquer modo há um paralelo entre a aprendizagem em escola e a aprendizagem em campo, ou seja, o atleta que aprende com facilidade na escola, muitas vezes aprende com mais facilidade nos treinos. A aprendizagem é só uma parte do sucesso, porque uma maior evolução na escola depende principalmente do volume e qualidade do estudo, enquanto a evolução de um atleta depende da sua entrega no treino e no volume de repetições que o treino proporciona. A mensagem que estamos passar para os nossos atletas, é que o sucesso desportivo pode-nos facilitar a vida depois da carreira, mas, só se tivermos sucesso ao nível académico antes e durante carreira profissional como atleta.
- Consideras fundamental que um jogador passe pelos diversos escalões de formação ou parece-te melhor que o jogador seja colocado a jogar contra atletas mais velhos, de modo a enfrentar maiores desafios?
Não se pode dar uma resposta geral a uma pergunta se é bom “queimar etapas” ou não. Na nossa formação cada caso é analisado como um caso e é conforme os objectivos que se pretendem alcançar, que se toma uma decisão. O principal critério tem a ver com as capacidades físicas do jogador, e as possibilidades que o mesmo tem para enfrentar a força e a intensidade dos mais velhos, sem prejudicar a sua saúde. Em segundo lugar, está a necessidade de manter, pelo menos, as mesmas oportunidades (tempo de jogo) no escalão mais velho, como no seu escalão etário. Por último, só vale a pena subir de escalão, se o jogador tem capacidades psicológicas para se manter como líder durante os treinos e jogos, da mesma maneira como liderava o grupo onde era dominante. Por tudo isto, estas decisões têm que ser tomadas depois de uma análise profunda, porque “a jogar contra atletas mais velhos”, em geral, pode ser bom só se o jogador estiver bem enquadrado, acompanhado e orientado.
- O campeonato nacional de sub-20 tem sido muito criticado. Para ti, faz sentido a sua existência?
Em geral sou muito mais crítico em relação à forma como se disputa o Campeonato Nacional de Sub-20, do que se faz sentido existir ou não. Talvez o ideal seria um Campeonato de Sub-19, onde fosse permitido que jogassem 2 ou 3 jogadores do escalão Sub-20. O problema é que as equipas do Sul que não se apuram para Fase Final, nunca jogam com equipas do Norte, e assim tem-se um “Meio” Campeonato Nacional. Às vezes as equipas fazem mais jogos-treino com equipas de Espanha do que com equipas a Sul ou Norte do nosso Pais. Por outro lado, entendo que, existindo 38 equipas a disputar estes campeonatos, nem todos jogadores destas equipas poderão vir a jogar nas equipas dos Campeonatos CNB2, CNB1, Proliga ou da Liga.
- No crescimento de um atleta, qual a importância de passar pela equipa B?
No crescimento de um atleta, o mais importante, são as horas e a qualidade do trabalho. Passar por uma equipa B ou ser emprestado a uma outra equipa, é só um “upgrade” na sua formação. De qualquer maneira, para os jogadores jovens do nosso clube, nas últimas três épocas, foi muito útil jogar integrado na equipa “B” a disputar a CNB1, principalmente logo no início de campeonato, enquanto todas as outras equipas estão ainda motivadas e bem treinadas.
- Este ano, o Benfica optou por emprestar uma série de jogadores a outras equipas. Qual o objectivo do clube ao tomar esta decisão?
A decisão sobre se um jogador vai fazer parte do plantel da equipa principal ou não, é sempre uma decisão que tem de ser tomada, em “exclusividade”, pela equipa técnica do plantel principal. Só os técnicos da equipa sénior sabem qual o estilo de jogo que desejam e vão utilizar, com que sistemas defensivos e ofensivos vão atrair os nossos adeptos e sócios, e como vão trazer alegria aos mesmos, através das vitórias, que no fundo, na maior parte das vezes, são os parâmetros de sucesso. Assim, com naturalidade, eles podem (ou não) escolher um jogador da formação para fazer parte da equipa principal, como podem, também, escolher (ou não) qualquer outro jogador mais experiente, para poder realizar os objectivos do clube. Por outro lado, os próprios jogadores emprestados, mostraram interesse em ter mais espaço para jogar, e até agora estamos muito contentes porque todos eles mostram, cada fim da semana, o seu potencial e qualidade. Por último queria aqui dizer que todos membros da nossa formação estão muito orgulhosos e motivados para continuar a desenvolver o mesmo trabalho, por já termos conseguido “lançar”, este ano, 4 jogadores para nossa Liga principal do basquetebol português.
- Dos jogadores que tens no Benfica B, quem te parece que poderá vir a ter projecção no Basquetebol internacional? Porquê?
Primeiro, os jogadores não são meus, são do Benfica, e eu sou apenas treinador deles, que é só um dos muitos “parafusos” da nossa “fábrica”, que tem, exactamente, como principal objectivo criar uma representativa e verdadeira Escola de Basquetebol, uma única ”fábrica de jogadores de basquetebol” a nível nacional, onde o “produto final” será “um” jogador de basquetebol com qualidade para jogar ao nível internacional. Sobre nomes claro que não quero destacar ninguém, porque eles próprios têm que se destacar com a sua evolução, como, por exemplo, já o fizeram o Cristóvão Cordeiro, o Tomás Barroso, o Antonio Monteiro, o Diogo Correia…
Todos eles sabem que se não quiserem trabalhar, 6-7 horas por dia, de certeza absoluta que há espanhóis, gregos, sérvios, lituanos… que querem. A minha mensagem a todos os jogadores com potencial e ambição é sempre a mesma: “se já não tens a certeza se trabalhas melhor do que outros, pelo menos só de ti depende se vais trabalhar mais do que os outros”. Ou alguém acha que por exemplo o Sérgio Ramos ou a Mary Andrade tiveram sucesso internacional só por causa de seu talento?
- No resto da Europa, encontramos jogadores com 17 e 18 anos a disputar as competições principais de seniores (nos nacionais e nas provas europeias). Porque achas que, em Portugal, só encontramos na Liga Profissional jogadores com mais de 20 anos?
É verdade. Por exemplo, o Partizan de Belgrado, este ano, tem na sua equipa 6 jogadores com 20 anos e joga de “igual por igual” na Euroliga e NBL Liga (Liga Adriática) e, no ano passado, mesmo assim, participou na Final Four da Euroliga. No último Campeonato de Mundo, a Selecção Sérvia apresentou talvez a equipa mais nova de todos campeonatos e há dois anos sagrou-se Vice-Campeã da Europa. Ao mesmo tempo foi uma das equipas mais atractivas, pelo basquetebol apresentado.
Mas para que isso aconteça deve existir, na minha modesta opinião, duas coisas:
1.º    Coragem do treinador;  
2.º    Horas e horas passadas em pavilhão a treinar os jovens jogadores.
Mas, em princípio nem se deve falar do 1.º ponto, se existirem poucos treinadores que estejam disponíveis e interessados a dedicar-se ao ponto 2.º. Ou podemos colocar as coisas assim:
Se um treinador dedica 6 ou 7 horas a um jovem jogador todos os dias, para trabalhar e melhorar o desempenho dele no campo, não é totalmente lógico que o mesmo treinador queira mostrar o seu trabalho no jogo? E precisa de coragem para isso?

Na minha opinião, coragem vai precisar, só quando não tem a certeza que o seu trabalho tem qualidade, e assim “tem de arriscar”.

- Em que nível te parece estar o Basquetebol português? Parece-te possível que, a médio prazo, possa aproximar-se dos melhores níveis europeus?
O basquetebol português está muito melhor do que há 11 anos quando eu cheguei a Portugal, mas, ao mesmo tempo, ainda está muito longe de poder fazer, em continuidade, histórias como fez a geração do Carlos Lisboa, Jean Jacques, Mike Plowden…, ou a Selecção Nacional no Europeu em 2007. No desporto moderno não existem termos “médio prazo”, ou “médio-curto prazo”… Existem objectivos, planeamentos, trabalho, muito trabalho, resultados (bons ou maus), análises e responsabilidades pelo trabalho feito. O melhor exemplo disso pode ser a AB Lisboa, que, no espaço de uma só época desportiva, mudou completamente a sua “posição” ao nível nacional. Se a ABL conseguiu fazer isso ao nível Nacional, acredito eu que também a FPB pode fazer o mesmo, ao nível Internacional.
- O que falta ao Basquetebol Português para chegar aí?
Do meu ponto de vista, o sucesso do basquetebol nacional tem que ser directamente ligado às condições de trabalho proporcionadas aos clubes, porque a base de formação dos jogadores tem que ser nos clubes, e não nas Selecções Distritais, CAR´s, ou Selecções Nacionais, que têm que ser só uma “cereja no topo de bolo”. Quando me refiro a condições de trabalho, além do material desportivo e do espaço para os treinos dos jovens, o mais importante é ter bons técnicos profissionais a trabalhar na formação, e não só em equipas seniores. Para acontecer isso é necessário ter dirigentes que saibam, entendam e tenham paciência, porque, no desporto, tudo o que se faz de hoje para amanha, facilmente se perde no dia seguinte. Acho que todos se lembram de dezenas e dezenas de “grandes” projectos que hoje já não existem, e só porque, a procura do sucesso se iniciou “por cima”, em vez de “por baixo”.
- Na tua opinião, como pode o site Planeta Basket apoiar o desenvolvimento de jovens jogadores fora de campo?
Uma boa ideia seria, talvez, publicar artigos sobre jogadores com sucesso ao nível internacional, para relatarem as suas “histórias” e todos os passos que tiveram que dar quando iniciaram a sua “caminhada” como jogadores jovens.
De qualquer modo, acho que o vosso website era, e ainda é, um “ar fresco” no espaço mediático dedicado ao basquetebol, e que nunca devia ir ao “colo” dos vários compromissos, que, às vezes, podem deixar “presas” as coisas que tem ser soltas (ditas).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Onda encarnada reaparece em Aveiro


Benfica ganhou ao Beira-Mar por 3-1, com Cardozo a ser o homem do jogo. Com dois golos e uma assistência para Saviola, o paraguaio está de volta às grandes exibições e promete devolver o Benfica à luta pelo primeiro lugar, agora a apenas 8 pontos de distância.
Beira-Mar entrou a pressionar mas foi o Benfica quem mais procurou o golo. Gaitán, logo aos 12 minutos, atirou a bola ao poste e Carlos Martins quase marcava aos 22 minutos, num lance onde só Hugo (melhor em campo na primeira parte) conseguiu impedir a abertura do marcador.
O momento crucial do jogo surgiu quando, em cima do intervalo, Kanu traiu o acerto do seu companheiro e cometeu falta para grande penalidade, agarrando a camisola de Cardozo.
Na segunda parte, o Benfica recuperou a alma de campeão e regressou ao jogo com uma oportunidade flagrante desperdiçada pelo paraguaio. O Beira-Mar tentou reagir, mas aos 58 minutos, Cardozo encontrou espaço à entrada da área aveirense e atirou ao segundo poste para um grande golo. Pouco depois, aos 65 minutos, o avançado deu, mais uma vez, espectáculo, fintando e servindo Saviola para o terceiro golo benfiquista.
Grande vitória para um Benfica inspirado, que ainda viu o Beira-Mar reduzir nos momentos finais, por Rui Varela, o que não retirou qualquer brilho à exibição de luxo conseguida pelos encarnados.

Ginásio cai nos Açores - LPB - Jornada 6

Daniel Félix, MVP da Jornada

A grande surpresa da sexta jornada da LPB aconteceu no Pavilhão Municipal de Angra do Heroísmo, onde o Casino Ginásio perdeu (63-62) com o Lusitânia local.

 Uma noite menos inspirada dos figueirenses permitiu que o Lusitânia conseguisse a sua segunda vitória no campeonato. Para isso contribuíram as boas exibições de todos os jogadores do cinco inicial açoriano, ao apresentarem duplos dígitos (fosse pontos ou ressaltos). Kenneth Cooper (13 pontos e 13 ressaltos) foi o melhor jogador da casa, Richard Oruche (17 pontos e 6 ressaltos) e Tomás Barroso (15 pontos e 5 ressaltos) não foram suficientes para compensar o momento menos bom que o norte-americano Jason Hartford parece estar a passar.

No Pavilhão da Luz, o Benfica venceu a partida contra um Sampaense que continua a mostrar qualidades para lutar por um lugar no Play-off. A equipa de São Paio de Gramaços nunca permitiu que os encarnados se distanciassem no marcador e chegou mesmo a empatar a partida a 11 segundos do final, com um triplo de Joel Almeida. No entanto, Miguel Minhava, numa penetração cheia de confiança, conseguiu dois pontos e ganhou uma falta, o que permitiu que o clube da Luz obrigasse o Sampaense a ter que marcar um triplo nos últimos cinco segundos. Riley Luettgerodtt, que com 28 pontos e 9 ressaltos foi o melhor jogador em campo, não conseguiu levar o jogo para prolongamento. Entre os homens da Luz, o homem mais valioso foi, mais uma vez, Sérgio Ramos (15 pontos e 11 ressaltos). Que fabulosa época está a fazer o veterano benfiquista.

No Dragão Caixa, o duelo entre treinadores espanhóis teve como vencedor claro Moncho Lopes. O Porto Ferpinta continua a sua carreira invencível na LPB, não permitindo que os penafidelenses pusessem esse estatuto em causa, com um último período onde foram visíveis todas as diferenças entre as duas equipas. Gregory Stempin foi o homem do jogo, com 24 pontos e 10 ressaltos, perante a equipa de Manolo Povea onde só Jeremy Goode (17 pontos e 4 ressaltos) deu luta.

Partida muito emotiva em Guimarães, onde a Ovarense voltou a perder, desta feita em casa de um adversário directo na luta pelos lugares de topo da classificação. As duas equipas têm tido um início de época atribulado, quer no plano desportivo, onde os resultados têm ficado aquém das expectativas, quer a nível disciplinar, com o Vitória a dispensar o seu jogador mais valioso durante a semana passada. O jogo acabou por ser decidido na linha de lances livres, onde os vareiros tiveram um aproveitamento global de apenas 50%. Matt Webster falhou dois lançamentos a 17 segundos do fim (que poderiam ter dado uma vantagem de 3 pontos à sua equipa) e Nolan Richardson acabou por não perdoar e colocar o marcador em 81-80. Kevin Martin (19 pontos e 12 ressaltos) foi o mais valioso para os vimaranenses, com Nuno Cortez (18 pontos e 8 ressaltos) a confirmar o bom momento que está a passar neste início de temporada.

Na estreia do treinador Artur Alvarez à frente do Barreirense, primeiros sinais de mudança. Os norte-americanos Tyrone Currnell (27 pontos e 17 ressaltos) e Jermaine Johnson (23 pontos e 13 ressaltos) estiveram num nível muito superior ao das jornadas anteriores, o que ainda assim não foi suficiente para levar de vencido um Illiabum que, sob a direcção de um fenomenal Daniel Félix (18 pontos, 6 ressaltos e 6 assistências), foi superior no prolongamento e conseguiu a sua terceira vitória na época.

Em Coimbra, os estudantes tinham a lição bem estudada e passaram no exame, batendo o CAB Madeira. Boas exibições de Tommie Eddie (17 pontos e 12 ressaltos), Fernando Sousa (23 pontos) e Diogo Simões (4 pontos, 5 ressaltos e 13 assistências). Entre os madeirenses, o contributo mais valioso foi de Mário Fernandes, com 15 pontos e 7 assistências.

Resultados completos da 6ª Jornada:
Porto Ferpinta – Penafiel 77-55
Benfica – Sampaense 74-71
Vitória Guimarães – Ovarense Dolce Vita 81-80
Lusitânia Expert – Casino Ginásio 63-63
Illiabum – Barreirense 79-77
Académica – CAB Madeira 85-80

Classificação:

6v-0d: Porto Ferpinta
5v-1d: Casino Ginásio
4c-2d: Benfica
3v-4d: CAB Madeira
3v-3d: Sampaense, Ovarense, V. Guimarães, Illiabum e Académica
2v-5d: Lusitânia
2v-4d: Penafiel
0v-6d: Barreirense

Aposta na Juventude - Entrevista a José Francisco, Barreirense


Com mais de trinta anos de ligação ao clube, José Francisco conseguiu, no ano passado, levar a equipa de sub-18  ao segundo lugar do nacional, equipa essa que orienta desde o início desta temporada. Nas últimas duas semanas, orientou provisoriamente a equipa sénior do clube, na transição entre os treinadores António Paulo Ferreira e Arturo Alvarez.  Conhecedor da realidade do seu clube, a sua opinião sobre o futuro do basquetebol do nosso país é uma mais-valia no debate que pretendemos proporcionar.

- Como está organizada a formação do Barreirense? Quantos atletas, treinadores e  equipas trabalham no clube?
A formação do Barreirense conta com cerca de 180 praticantes, divididos pelo Minibasquete; Sub8, Sub10 e Sub12 e depois pelas equipas de competição; Sub14B, Sub14A, Sub16B, Sub16A, Sub18 e Sub20. Cada equipa tem dois treinadores, principal e adjunto, e temos dois Coordenadores ao nível da formação; um no Minibasquete e outro para as equipas de competição.

- Qual a importância dos resultados escolares na evolução de um atleta?
Esse é um aspecto ao qual dedicamos muita atenção neste Clube. Enquanto Clube de formação somos muito sensíveis ao aproveitamento escolar e comportamento social dos nossos atletas. Estamos em constante contacto com os Pais e, por vezes, com as escolas onde os nossos atletas estudam. Felizmente, na sua grande maioria, os nossos atletas têm um excelente aproveitamento, facto que se comprova facilmente pela nossa equipa de Sub20 e sénior, onde temos um grande número de atletas no ensino superior.

- Consideras fundamental que um jogador passe pelos diversos escalões de formação ou parece-te melhor que o jogador seja colocado a jogar contra atletas mais velhos, de modo a enfrentar maiores desafios?
Essa é uma pergunta que nos colocamos frequentemente pois temos casos de atletas que atendendo às suas capacidades físicas e basquetebolísticas jogam nos escalões acima. Por principio, consideramos que o atleta deve jogar, preferencialmente, no seu escalão pois não acreditamos que durante a sua formação se deva queimar etapas. Isso pode ser prejudicial para a evolução do atleta. No entanto, há casos em que a diferença perante os restantes elementos da equipa é notória e, como tal, treinam e jogam no escalão superior.

-  O campeonato nacional de sub-20 tem sido muito criticado. Para ti, faz sentido a sua existência?
É verdade o campeonato de Sub-20 tem sido alvo de algumas criticas pois chegámos a um ponto em que havia poucas equipas a participarem e o nível competitivo era muito reduzido em termos nacionais. Esta época a FPB alterou o modelo de competição procurando dar maior competitividade à prova, o que na verdade veio a acontecer ,mas ainda não estamos certos se este será o melhor caminho para preparar os nosso jovens para um basquetebol de alta competição e evoluirmos ao nível do que melhor se faz na Europa.

- O Barreirense apresenta um dos plantéis mais jovens da Liga. Tem-se justificado esta aposta nos jovens?
Essa tem sido a política do Clube ao longo dos anos; apostar nos jogadores formados no Clube. Esta época por exemplo, temos apenas dois atletas norte americanos enquanto as outras equipas da Liga tem três. Assumimos riscos mas acreditamos que só assim podemos evoluir e promover a pratica do basquetebol entre os mais jovens, pena é que os outros Clubes não façam o mesmo pois o basquetebol Português sairia a ganhar.

- Dos jogadores que tens no plantel profissional, quem te parece que poderá vir a ter projecção no Basquetebol internacional? Porquê?
Essa é uma pergunta difícil. Acreditamos que temos vários jogadores com capacidade para fazer carreira em termos internacionais. Nomes como Pedro Pinto, José Silva, Miguel Graça, Manuel Sicó, João Guerreiro, Miguel Queiróz, são todos internacionais e com grande potencial e atendendo à sua idade tem uma grande margem de progressão podendo jogar em qualquer Liga Europeia.

-O Barreirense tem tido vários jogadores nas Selecções Nacionais. Parece-te que esse contacto dos jogadores com adversários estrangeiros é fundamental para a sua evolução?
É muito importante. Os nossos atletas têm grande experiência internacional pois muitos deles já estiveram em vários Campeonatos da Europa ao serviço das nossas selecções. Essas experiências são muito importantes para a sua evolução enquanto atletas de alta competição.

- No resto da Europa, encontramos jogadores com 17 e 18 anos a disputar as competições principais de seniores (nos nacionais e nas provas europeias). Em Portugal, o Barreirense é a única equipa a dar muitos minutos a jogadores com essas idades. Porque não encontramos mais jovens jogadores a este nível?
É um risco apostar em jovens atletas e lançá-los na equipa sénior pois por vezes isso não garante resultados desportivos no imediato. Na maioria dos casos as equipas da LPB não apostam nos escalões de formação e como tal, todos os anos vão buscar novos jogadores, descurando os jovens oriundos da formação.

- Em que nível te parece estar o Basquetebol português? Parece-te possível que, a médio prazo, possa aproximar-se dos melhores níveis europeus?
É difícil pois consideramos que o nosso basquetebol ainda tem muito que evoluir para chegar ao nível dos melhores da Europa. Ainda há muito trabalho para fazer em termos organizativos e estruturais de modo a permitir-nos sonhar jogar ao mais alto nível. Falta-nos experiência internacional e é necessário os sponsors apostarem na modalidade a exemplo do que acontece noutros países.

 - O que falta ao Basquetebol Português para chegar aí?
Falta-nos muito. Falta-nos uma política desportiva que permita a divulgação e a pratica desportiva e em particular do basquetebol, junto dos nossos jovens. Temos também que melhorar ao nível das infra-estruturas criando mais espaços para a prática da modalidade pois o basquetebol tem que chegar a todos pois é fundamental aumentar o número de praticantes e ao mesmo tempo formar novos treinadores, árbitros etc.

- Na tua opinião, como pode o site Planeta Basket apoiar o desenvolvimento de jovens jogadores fora de campo?
O vosso site tem tido um papel muito importante na promoção da modalidade. É um projecto arrojado e que tem vindo a assumir um papel muito importante para a modalidade através dos artigos de grande qualidade que têm vindo a publicar. Estamos certos que hoje em dia são uma referência para todos os que gostam de basquetebol em Portugal. Parabéns pelo vosso trabalho.

domingo, 28 de novembro de 2010

Olhar o Futuro

De tempos a tempos, todos devemos fazer uma reflexão sobre o trabalho que desenvolvemos. Para essa reflexão ser completa, o ideal é poder cruzá-la e compará-la com outras pessoas que desenvolvem o mesmo trabalho que nós.


No entanto, poucas vezes isso é possível. O Planeta Basket propôs a diversos treinadores ligados à formação do basquetebol que nos falassem da realidade dos seus clubes e das suas visões pessoais para o futuro da modalidade.

Procurámos assim estabelecer critérios sobre com quem conversar. Os clubes grandes, Porto e Benfica, que têm equipas B a militar no CNB1, para além de agruparem nos seus conjuntos alguns dos jogadores que estão, reconhecidamente, entre os mais prometedores do nosso basquetebol. O Barreirense, que coloca os seus jovens jogadores a jogar ao mais alto nível desde muito novos, apresentando a equipa mais jovem da LPB. E o Vasco da Gama, que abdica do profissionalismo no escalão sénior, tendo vindo a conquistar o respeito de todos aqueles que trabalham na formação de jovens atletas aos longo dos últimos anos.

São quatro olhares diferentes, ao qual juntaremos a visão Seleccionador  de Sub-20, André Martins. Interessa-nos, com esta série de entrevistas, explorar a pergunta de como estamos a tratar o jovem jogador português, como criamos espaços competitivos para eles (equipas B, equipas profissionais com jovens, ou equipas não-profissionais) e como será o futuro do basquetebol português. Trata-se de uma investigação que, colocando vários técnicos a falar do que estão a fazer, esperamos possa resultar numa saudável reflexão sobre o futuro do basquetebol em Portugal.

Não podemos deixar de agradecer a disponibilidade de cada um dos entrevistados, José Francisco, Goran Nogic, João Tiago, Rui Fonseca e André Martins, bem como do atleta Diogo Correia, que também nos falou da sua situação enquanto jovem jogador na recta final do seu processo de formação. Agradecemos também a disponibilidade dos vários clubes em nos proporcionar este trabalho.

As entrevistas serão publicadas diariamente ao longo desta semana. Não deixem de dar a vossa opinião e contribuir, também, para a reflexão que é aqui proposta. 

"Carlos Lisboa era especial" - Entrevista a Tim Shea

altFalámos com Tim Shea, treinador norte-americano que passou pelo Benfica no início dos anos 90. Tim Shea é um senhor do basquetebol mundial.
Com uma larga experiência no jogo, este norte-americano treinou clubes como o Breogan, Ourense e Atlético de Madrid (Espanha), Maccabi Jerusalém (Israel), Seoul Samsung (Coreia do Sul) e o Benfica, no início dos anos 90, antes da chegada de Mário Palma. Também tem no currículo vários anos como olheiro internacional a trabalhar para equipas como os New York Knicks, Phoenix Suns e Charlotte Bobcats. Hoje em dia, para além de colaborar com uma reconhecida agência de jogadores, Tim Shea divide o seu tempo entre Espanha e os Estados Unidos. O Planeta Basket encontrou-se com ele e não podia esperar melhor de um homem com a sua carreira.

Foste um dos treinadores que passou pela frente da melhor equipa portuguesa de todos os tempo, o Benfica dos anos 90. Como foi a tua experiência em Portugal?Foram épocas cheias de sucesso e de jogos fantásticos, um período muito importante da minha vida. As pessoas, os jogadores, os directores, o clube, a cidade, a comida, tudo em Lisboa era maravilhoso. Para além disso, a minha filha Olívia nasceu em Lisboa e isso eu não posso esquecer. Ganhámos dois títulos nacionais e jogamos na Taça dos Campeões. Ganhámos alguns jogos de exibição contra equipas espanholas e mantínhamos uma atitude vencedora, num grupo excelente ao nível humano. Confesso que me arrependi algumas vezes de ter saído, mas a proposta económica do Atlético de Madrid de Jesus Gil era demasiado alta para recusar.
Os jogadores do Benfica naquela época estavam ao nível dos melhores da Europa?Sim, sem dúvida, o Carlos Lisboa acima de todos eles. Ele foi, com o Walter Berry, o melhor jogador que alguma vez treinei. Tinha muita imaginação, uma tremenda presença atlética, fabuloso nos movimentos ofensivos e duro na defesa, sempre que era preciso. O Jean-Jacques e o José Carlos Guimarães, que vinham da escola angolana, eram também tremendos jogadores e excelentes companheiros de equipa.
Achas possível voltarmos a ter um jogador do nível do Carlos Lisboa? Como se forma um jogador como ele?Não me parece. O Carlos Lisboa era um grande atleta e isso é algo que não se ensina. Não sei se alguém poderá igualar aquilo que o Carlos fazia. Nos dias de hoje, o Carlos estaria a jogar na NBA e com minutos significantes, tenho a certeza disso. Qualquer jogador que chegue perto do nível do Carlos Lisboa será um jogador fantástico. É claro que não se deve dizer nunca, mas o Lisboa era mesmo mesmo especial.
Continuaste a trabalhar na Europa, como treinador e como olheiro de equipas da NBA, qual a visão que tens hoje do basquetebol português? Foi-me dito, por alguns amigos e pelo meu agente, António Pereira, que os clubes e a competição estão a ser afectados pela falta de patrocinadores, devido à crise económica mundial. Mais do que tudo, acho que em Portugal o futebol é o desporto-rei e o basquetebol tem que lutar pelo seu lugar, ou perderá importância. Pessoalmente, adoro o vosso país e Lisboa, e não diria não a uma proposta para voltar a trabalhar aí.
Passaste por Portugal, Itália, Espanha, Áustria, Israel… Quais as diferenças entre o que acontece no basquetebol de cada um destes países?Todos eles, excepto Israel, têm uma coisa em comum: o futebol é o desporto-rei. E no final das  contas, é o dinheiro quem manda. Falo de patrocinadores, do acompanhamento das televisões, da força de cada uma das federações nacionais. Há uma enorme crise que tem atingido os clubes mais pequenos na sua capacidade para encontrar patrocínios. E é cada vez maior a diferença entre estes e os grandes clubes que têm equipas de futebol, que detêm um poder económico quase ilimitado. Em Espanha temos um triste exemplo. O Barcelona e o Real Madrid são dois gigantes ricos e poderosos. O vizinho do Real, o Estudiantes, anda a fazer contas para ver se consegue pagar as contas do próximo mês. O caso do Joventut Badalona é semelhante, ao lado do Barcelona. Esses “novos pobres” do basquetebol são equipas tradicionalmente conhecidas pelas suas “canteras” e por alimentar o basquetebol espanhol com novos talentos. É preciso encontrar uma resposta para o que está a acontecer e dessa resposta depende o futuro da modalidade. O futur
o é agora.
Também tiveste uma experiência na Coreia do Sul. Como é o basquetebol asiático? Há semelhanças com o europeu?É muito diferente. Os patrocinadores, no caso da equipa que treinei, a Samsung, têm um controlo directo de tudo o que se passa na equipa, como os jogadores, os treinadores e os pavilhões. Não existe uma estrutura de clubes como na Europa. Espera-se que os jogadores vivam juntos, em residências, e joguem muitos jogos em curtos períodos, às vezes três jogos da liga numa semana! O tipo de jogo é semelhante ao da Conferência Oeste da NBA, correr e lançar, “viver e deixar viver”. Foi uma excelente experiência mas acabou precocemente quando um dos assistentes coreanos humilhou publicamente um dos jogadores, com palavras e murros na cabeça. Eu não queria fazer parte daquele filme e pedi a demissão. Abusos e violência não têm lugar no desporto, ponto final.
Como olheiro internacional, quais as características a que dás mais atenção?Eu procuro envergadura, velocidade, inteligência e ambição. Tudo começa por aí.
E quais as diferenças entre um jogador prometedor para a NCAA e um jogador prometedor para a NBA?São coisas muito diferentes, sem comparação. São diferenças entre competições amadoras e profissionais. Muitos são possíveis jogadores da NCAA, quase nenhuns da NBA. Eu diria que há uma diferença de 20,000 para 1.
Quais os países que estão a trabalhar melhor na formação de jogadores?Espanha, Lituânia, Itália e Alemanha.
Tens trabalhado também na formação de treinadores. Quais as principais características que um treinador deve ter?Um bom treinador é uma conjugação de um líder, um professor, um amigo e um decisor. O basquetebol precisa que os treinadores sejam bem preparados e capazes. O treinador precisa de ser paciente, de querer aprender sem parar. Adorar o jogo e ser humilde são capacidades essenciais. O basquetebol é um jogo simples e apenas os maus treinadores o complicam.
O que é mais importante? Formar treinadores que liderem equipas profissionais ou treinadores para a formação de jogadores?Um treinador é um treinador é um treinador. Não há diferença entre onde, com quem, se és pago ou não. O treinador de uma equipa de miúdos é tão importante quanto o Phil Jackson, a única diferença é a forma como a sociedade o vê.
Que mensagem deixarias para quem tem vontade de viver no Basquetebol, como jogador ou treinador?Estudem e trabalhem muito. Vivam da maneira certa. Respeitem o jogo e as pessoas envolvidas nele. Mantenham uma mente aberta. Trabalhem em rede com outros apaixonados pelo jogo.
Achas que o Planeta Basket tem um papel a desempenhar na formação de jovens ligados ao basquetebol?Claro que sim. Desde sempre que os meios de comunicação e os especialistas escreveram diariamente sobre a modalidade. Aquilo que eles escrevem é o que dá importância ao jogo e os jovens são atraídos pelo efeito criado por esses textos. Sem o trabalho destas pessoas, os jovens não encontrariam motivação para continuarem ligados ao basquetebol. O Planeta Basket e os outros sites que fornecem informação, vídeos, notícias sobre campos de treino e todos os pormenores sobre o jogo têm, não só um papel a desempenhar, mas eu diria mesmo que são essenciais para o futuro do basquetebol.
Obrigado, Tim, pelas tuas palavras.Eu é que agradeço o facto de teres feito esta entrevista e gostaria de aproveitar para cumprimentar todas as pessoas que estiveram comigo e com a minha família em Portugal. Finalmente, dizer que mantenho a esperança de um dia as poder voltar a ver. 

sábado, 27 de novembro de 2010

Alguém vai ter que pagar


Benfica e Beira-Mar defrontam-se no domingo, no Municipal de Aveiro, com sede de vingança
Na quarta-feira, o Benfica perdeu as esperanças de continuar na Liga dos Campeões, enquanto os aveirenses foram afastados da Taça de Portugal no passado fim-de-semana.
Cabe aos encarnados a maior dose de responsabilidade. Com os níveis de contestação em alta, os benfiquistas tudo farão para dar uma melhor imagem de si no regresso aos relvados portugueses. Cardozo, que ainda procura a sua melhor forma, será aposta de Jorge Jesus, tal como tudo indica que Saviola e Carlos Martins terão lugar garantido no onze. O treinador encarnado pretende assim regressar à fórmula que lhe garantiu êxitos na época passada.
Por outro lado, os homens da Luz não deixarão de prestar atenção ao que se passará na noite de sábado em Alvalade, onde o FC Porto terá um duro teste à sua invencibilidade em jogos da Liga. Um possível deslize dos dragões vai permitir ao Benfica uma aproximação na tabela classificativa e um renascer da esperança entre os seus adeptos. 
Do lado da equipa do Beira-Mar, os prováveis regressos de Rui Rêgo e Hugo e a aposta no jovem Sérgio Oliveira (emprestado pelo FC Porto) serão os trunfos que o treinador Leonardo Jardim tem na manga para tentar alcançar mais pontos na luta pela manutenção

O orgulho de ser um Gardel


Não se nasce impunemente em Montevideu. Esta é uma frase muitas vezes repetida nas margens do Rio da Prata, sobretudo no velho porto onde homens de todas as idades e classes sociais se cruzam na noite com mulheres de má vida e com o seu próprio destino de perdição. Entre esses homens, é habitual ouvir velhos cantores de tangos que passam aos mais jovens muito do que é essa sensação de se ser do Rio da Prata. Os jovens chegam ao porto atraídos por lugares onde a identidade se encontra a cada esquina, esperando sempre ser algo mais do que aquilo que são realmente. Nem todos o conseguem encontrar.
No caso de Ignacio Escayola poderá dizer-se que pouco precisava de procurar. Ele próprio já era a identidade em pessoa. Escayola é um nome que provoca um sorriso de orgulho nos cantos de todas as bocas uruguaias. Segundo a lenda, Carlos Gardel, o grande cantor de tangos argentino, terá nascido no Uruguai, filho de um líder político regional de nome Escayola. A história nunca se terá confirmado, mas não é sem algum gozo que os uruguaios chamam a si um dos maiores símbolos do seu país vizinho. Ignacio seria um sobrinho-neto já distante na história mas, ainda assim, trazia no ADN familiar uma parte do orgulho de ser uruguaio.
Uma parte desse orgulho faz-se, aliás, desta matreirice de estar sempre à espera do erro alheio. O Uruguai nunca é o melhor em nada. No entanto, está sempre onde o outro erra. Onde o outro se distrai. O Brasil distraiu-se em 1950 e o Uruguai ganhou o Mundial. A Argentina não tratou de registar o Carlos Gardel e os uruguaios dizem que ele nasceu no seu país. São assim em tudo. Ignacio Escayola era assim dentro de campo. Poderia ser um grande jogador, mas era preguiçoso. Aproveitava, no entanto, como ninguém, todos os erros dos defesas adversários. E era vê-los desesperados quando Ignacio se escapava em direcção da baliza, a rematar sem piedade para o fundo das redes. Onde os outros falhavam, Escayola concretizava.
A vida de Escayola era fácil de contar. Nasceu (como se sabe, não impunemente) em Montevideu. Viveu sempre em Montevideu. Foi um jovem como os outros, faltou muitas vezes às aulas, correu para o porto em busca de mulheres fáceis e complicados poemas dentro de tangos, que o ajudaram a compor a sua mente um pouco perturbada. Quis ser jogador de futebol, prestou provas no Peñarol, no Nacional, mas acabou por ser jogador do Rampla Juniors, uma típica equipa de bairro da capital uruguaia. Não satisfeito com isso, vivia na ânsia de ser um Gardel, fugir para a Argentina, encontrar a felicidade em Buenos Aires, entre a descendência da sua família mítica.
O Rampla, não sendo uma grande equipa, joga na primeira divisão. Ignacio Escayola, não sendo um jogador muito dedicado, é normalmente titular da equipa. Um ponta de lança dos antigos, oportunista, pouco mais. Também à noite, no porto, vai encontrando as suas formas de viver. Escolhe uma mulher, rouba uma carteira, algum conhecido lhe paga um copo. Ignacio é respeitado nos locais que frequenta, pela história da sua família, pelos golos que vai marcando. Mas não é um homem feliz, não é um homem realizado. É um Escayola quando queria ser um Gardel. É um uruguaio quando queria ser argentino. Tudo se confunde no espírito de Ignacio.
Foi já no início deste ano de 2010, na primeira jornada do Torneio de Clausura do Uruguai, que Ignacio Escayola viveu o seu dia d. Foi nesse dia que, na sua cabeça, todas as coisas encontraram um sentido. Nessa tarde de domingo, 24 de Janeiro, o Rampla Juniors encontrou a equipa do Cerro, seus grandes rivais. E o jogo não podia ter começado melhor, com Ignacio Escayola a marcar por duas vezes, aos 47 e 55 minutos de jogo, aproveitando deslizes da defesa adversária. Tudo pareceria perfeito, indicando finalmente a chegada do Ramplas Juniors ao ponto alto da sua história. No entanto, o destino, o tango, não era isso que previa para o final do encontro. Com Ignacio e os seus colegas já perfeitamente esgotados de defender o resultado, a equipa do Cerro conseguiu marcar por duas vezes em tempo de descontos e conquistou um inesperado empate.
Para Ignacio Escayola, foi mais do que uma falta de pernas. Para ele, que era ainda um jovem um tanto inconsciente, com os seus vinte e quatro anos, foi o sinal de que o futebol não era para ele. Decidiu isso quando num dos bares do porto, ouvia o seu famoso tio Carlos Gardel, cantar “Por una Cabeza”, como que lhe dizendo que as coisas nos fogem entre os dedos por quase nada. Ignacio não iria deixar mais que o destino lhe fugisse. Bebeu tudo o que pôde, cumprimentou todos os amigos e o dono do bar como se voltasse na noite seguinte, pediu até que o deixassem pagar a conta mais tarde, o que era costume habitual e permitido entre os clientes habituais. Ignacio Escayola nunca mais apareceu. Uns dizem que anda por Buenos Aires, em busca da sua outra família. Outros que fugiu para França, onde sobrevive cantando tangos, fazendo biscates, pequenos roubos. Ignacio Escayola, onde estiver, com certeza que dirá, com ar pesado e dramático: morri no Estádio Centenário, em Montevideu, a 24 de Janeiro de 2010.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ivan Kostourkov na Física de Torres

Ivan Kostourkov vai orientar a equipa da Física de Torres na recepção ao Eléctrico de Ponte de Sôr, em jogo a contar para a quarta jornada da Proliga.

Confirmada a baixa por doença do treinador José Abrantes, por um período de tempo ainda não determinado, a Física partiu para a contratação do búlgaro Ivan Kostourkov para a equipa técnica, ocupando o lugar de Abrantes até ao seu regresso. Kostourkov encontrava-se, actualmente, sem equipa, depois de ter orientado a Selecção Masculina de Sub-18 nos últimos anos.

Aos 42 anos, este antigo internacional búlgaro ao serviço do Slávia e do Levski de Sófia, chegou a Portugal em 1999 e representou, enquanto jogador, o Belenenses, o Seixal e o Santarém Basket. Já enquanto treinador, trabalhou no Belenenses, no Santarém e ao serviço da Federação.

Na última jornada, a equipa da Física venceu o Sangalhos por 83-46. Depois do jogo com o Eléctrico, amanhã, a Física receberá o Casino Ginásio, em jogo a contar para a Taça de Portugal (1 de Dezembro) e o Seixal, na quinta jornada da Proliga (4 de Dezembro).

Eurochallenge - Jornada 2

Resumo da Jornada 2 do Eurochallenge no site BasketMe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O resumo semanal das ligas estrangeiras

A estreia de Allen Iversen na Liga Turca, o Hemofarm a dominar na Liga Adriática, a invencibilidade de Porto e Ginásio, a primeira vitória do Dusseldorf Giants, o despedimento de Vincent Collet, Lamont Mack no AEK Atenas, a difícil vida do CSKA de Moscovo, os primeiros apurados para a segunda fase da Liga Argentina, o Poeta que domina em Itália...

Tudo isto e muito mais no resumo semanal das ligas estrangeiras no solobasket.com.

À segunda foi de vez

Ben Reed a caminho do cesto

A equipa do Benfica conseguiu a primeira vitória no Eurochallenge ao bater os Lugano Tigers por 89-84, depois de uma excelente segunda parte.
O ambiente no Pavilhão da Luz não prometia muito entusiasmo, tendo em conta as bancadas despidas, mas o que se viu dentro das quatro linhas foi um jogo de muito boa qualidade. Os Lugano Tigers entraram muito bem no jogo, mostrando uma boa escolha dos lançamentos e aproveitando alguma passividade da defesa benfiquista. Com parciais de 18-22 e 20-25, os suíços foram para o intervalo com uma vantagem de nove pontos, que até podia ser superior.

Na segunda parte, o Benfica surgiu transfigurado. Acertando o processo defensivo, contando com maior agressividade nos contactos e beneficiando da inspiração de Sérgio Ramos (17 pontos) e Ben Reed (22 pontos, 5 assistências), os encarnados foram reduzindo a desvantagem perante uma equipa suíça que ia revelando alguma inconsistência para lidar com a pressão. Outro dos benfiquistas em destaque foi Greg Jenkins (22 pontos, 9 ressaltos), a fazer a sua primeira grande exibição desde que chegou a Portugal. Para o lado dos Tigers, Mohamed Abukar (28 pontos, 10 ressaltos) confirmou tudo o que se esperava dele e foi o MVP da partida.

Grande vitória para os benfiquistas que assim conseguem assegurar vantagem num grupo que está a ser dominado pelo Lukoil Academic, da Bulgária, que viajou até à Estónia para bater o Tartu Rock por 72-80. Na próxima semana, o Benfica recebe os estónios, que contam com derrotas nos dois jogos disputados, enquanto o líder Lukoil viaja até à Suiça. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Perfeição na Figueira - 5ª Jornada da LPB

O treinador Sérgio Salvador deve ser a pessoa mais feliz do basquetebol português.
Na verdade, esta época, ainda nenhuma equipa tinha tido uma tarde tão perfeita quanto o Casino Ginásio, na recepção ao Vitória de Guimarães. A equipa figueirense coloca, nem mais nem menos, três jogadores entre os melhores da jornada, e se já é habitual encontrar por lá Richard Oruche (32 pontos, 8 ressaltos) e Tomás Barroso (22 pontos e 6 assistências), o que dizer da fabulosa exibição de Pedro Silva, com uma percentagem de 75% no lançamento interior a fazer corar os melhores postes da liga, mas também a envergonhar a defesa vimaranense, equipa que continua a não conseguir mostrar consistência nesta temporada.
Quem também continua sem conhecer o travo da derrota é o Porto Ferpinta. Desta vez a vítima foi o Sampaense, equipa que até tem vindo a fazer um excelente campeonato mas que, neste domingo, foi incapaz de disputar a partida contra os Dragões de Moncho Lopez. Almaad Jackson (7 pontos e 5 ressaltos) esteve muito abaixo do que tem mostrado e a equipa portista apresentou uma rotação de fazer inveja, com sete jogadores a contribuírem com dois dígitos, destacando-se o duplo-duplo de Julian Terrell (10 pontos e 11 ressaltos).
No Barreiro, a estreia de José Francisco não podia ter sido pior, com a sua equipa a ser abalroada por um Benfica em ritmo europeu. Pedro Pinto (2 pontos e 2 assistências) teve uma tarde para esquecer e só Tyronne Curnell (22 pontos e 7 ressaltos) mostrou-se capaz de fazer frente aos campeões. Entre as águias, Sérgio Ramos (15 pontos e 7 ressaltos) cotou-se, uma vez mais, como figura principal, desta vez com a companhia de Greg Jenkins (14 pontos e 7 ressaltos). Muita rotação entre os rapazes da Luz que, na próxima terça-feira, terão mais um desafio na Eurochallenge, recebendo os suíços do Lugano Tigers.
Nas restantes partidas, destaque para a vitória do Illiabum em Coimbra. Apesar de Tommie Eddie (22 pontos e 8 ressaltos) ter feito a melhor exibição da jornada, um último período totalmente dominador dos homens de Alexandre Pires (parcial de 16-31) permitiu-lhes uma vitória importantíssima na luta pela melhor classificação no Play-off. Taj Crutchfield (25 pontos e 7 ressaltos) foi o jogador mais valioso, mas merecido destaque para  João Balseiro (16 pontos) que está num fantástico momento de forma e encestou 5 vezes da linha dos 6.75m no último período. É fazer as contas e perceber quem foi o abono de família para os amarelos.
A Ovarense cumpriu o seu papel recebendo e vencendo o CAB Madeira em vésperas de uma deslocação difícil a Guimarães. É em Ovar que vive outro dos portugueses que merece destaque nesta jornada. Nuno Cortez (13 pontos e 16 ressaltos) tem estado enorme na luta das tabelas e a contribuir, e muito, para a sua equipa. Entre os madeirenses, é Nathan Menefee (21 pontos e 7 ressaltos) quem merece o prémio regularidade, numa equipa onde a lesão de Bobby Madison permitiu algum destaque a Jorge Coelho (10 pontos, 6 ressaltos, 5 assistências).
Em Penafiel realizou-se o encontro mais disputado da jornada, com os homens de Manolo Povea a conquistarem a vitória, em boa parte devido à excelente exibição do experiente Rui Mota (15 pontos e 7 assistências). Entre os açorianos, apenas Kenneth Cooper (14 pontos e 6 ressaltos) cumpriu os serviços mínimos, fazendo com que o Lusitânia ocupe agora um dos lugares que levam à despromoção.
Resultados da 5ª Jornada:
Académica – Illiabum 70-81
Ovarense Dolce Vita – CAB Madeira 87-79
Casino Ginásio – Vitória de Guimarães 88-77
Barreirense – Benfica 56-79
Penafiel – Lusitânia Expert 52-50
Sampaense Basket – Porto Ferpinta 75-106

Entrevista a Kyle Singler, jogador da Universidade de Duke

Em mais uma entrevista exclusiva, cheguei à conversa com Kyle Singler, jogador da Universidade de Duke, distinguido como o MVP da Final Four do Campeonato da NCAA 2010.
Embora muitos esperassem que se candidatasse ao Draft deste ano, Kyle preferiu continuar na sua Universidade e vai tentar repetir a façanha da época passada, algo que muito poucos jogadores conseguiram.
Com origem numa família de desportistas, (os seus pais e tios foram jogadores de basquetebol e futebol americano de nível universitário), Kyle Singler é um extremo de 22 anos e 2.03m, um líder na sua equipa e um grande favorito a figurar nos primeiros lugares do Draft de 2011.

Existe muita gente que espera que tu sejas a primeira escolha do Draft 2011. Como convives com essa responsabilidade?
Tenho trabalhado muito para chegar a esse nível, mas não posso passar os dias a pensar nisso. A minha obrigação é jogar com confiança e concentrado naquilo que a minha equipa está a fazer, o resto virá por acréscimo.

Foste o MVP da Final Four do ano passado, porque continuaste mais um ano na Universidade?
Eu adoro estar na escola. Adoro esta equipa e adoro a Universidade de Duke. Ao mesmo tempo, ainda estou a evoluir enquanto jogador de basquetebol. E, na verdade, ninguém me pressionou, nem eu senti necessidade de ir já para a NBA. No próximo ano, estou seguro, isso irá acontecer.

És comparado com o Larry Bird, quer na qualidade do teu jogo, quer nas características de líder que apresentas. Ele é o teu modelo de jogador?
Não diria que é um modelo, mas é um jogador que influencia a minha forma de estar no jogo. Era muito divertido vê-lo jogar, quando ele estava nos Celtics. É claro que eu gostaria de conseguir atingir o nível que ele atingiu e ganhar tudo aquilo que ele ganhou na modalidade.

Quais serão as dificuldades que Duke terá que ultrapassar, na época que agora começou, para repetirem a conquista do título?
Na verdade, já falámos sobre isso na nossa equipa, e sentimos que o mais importante é não deixarmos de sermos nós próprios, dentro e fora do campo. Temos que nos manter concentrados e garantir que estaremos sempre a tomar as melhores decisões.

Fizeste parte das diversas equipas de formação dos Estados Unidos, sonhas com a possibilidade de vires a ser Campeão Olímpico e Campeão do Mundo?
Sim, claro, ainda para mais sendo treinado pelo responsável da Selecção Nacional [Mike Krzyzewski acumula funções na Universidade de Duke e na US Basketball]. É verdade que já representei o meu país em diversas oportunidades e senti sempre um grande orgulho em fazê-lo. Espero ter a possibilidade de o voltar a fazer em competições como o Mundial ou os Jogos Olímpicos.

Para ti é importante acompanhar o basquetebol na Europa? O que sabes do basquetebol português?
Tomo alguma atenção aos jogadores que vêem de outros países para jogar na NBA. Mas, na verdade, raramente tenho tempo para ver jogos disputados nas competições europeias ou portuguesas. Sei que o basquetebol é um desporto muito importante na Europa e isso fez com que alguns dos grandes jogadores da NBA tenham origem nesses campeonatos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

José Abrantes hospitalizado

No jogo realizado no passado sábado, a contar para a terceira jornada da Proliga, a equipa da Física de Torres Vedras foi orientada pelo Coordenador José Tavares e não pelo treinador José Abrantes.

Tal facto deveu-se a problemas de saúde do treinador, que se encontra hospitalizado em Vila Franca de Xira com uma pancreatite.

Não tendo sido possível apurar mais detalhes sobre esta situação, desejamos a rápida recuperação ao José Abrantes.

Física esmaga Sangalhos

Em Torres Vedras, a Física recebeu um surpreendente Sangalhos, tão frágil foi a réplica apresentada pela equipa azul. Sem precisar de grande esforço, os homens de Torres Vedras foram sempre superiores ao Sangalhos que entrou a perder com um parcial de 8-2 e no final do primeiro período tinha uma desvantagem de 19-13. O Sangalhos tentou reagir, ainda no primeiro quarto, com a entrada de Jorge Seabra para o lugar de André Duarte, e embora se tenham notado algumas diferenças,não foram as suficientes para impedir uma Física mais forte fisicamente de ganhar mais vantagem no marcador. 

Ao intervalo a Física ganhava por 43-22 e já começara a dar minutos aos seus vários jogadores. Enquanto o treinador do Sangalhos pedia mais agressividade aos seus jogadores, estes não conseguiam impor o seu jogo para lá de algumas combinações no jogo interior, mas a vantagem nos ressaltos foi sempre da Física. Mesmo dando oportunidade a dois dos seus jogadores sub-20, a Física terminou o jogo com um impressionante 83-46, destacando-se as exibições de Anastácio Sami (16 pontos, 7 ressaltos), Carlos Dias (17 pontos) e Braima Freire (14 pontos). Na equipa da Bairrada, apenas Emanuel Silva deu um ar da sua graça, com 20 pontos na sua estatística. 

sábado, 20 de novembro de 2010

A culpa é do balanço


Sempre junto dos seus pais que passavam boa parte do dia num pequeno restaurante que exploravam num barco pelos canais da cidade, Gerald era um rapaz irrequieto. Gerald não parava quieto a correr pelas ruas de Amesterdão com os seus pequenos amigos, a inventar aventuras, perseguições, corridas e jogos. Era o típico puto traquinas, que toda a gente conhecia, por inícios dos anos setenta, nas ruas que eram atravessadas pelos canais.
Gerald era também um dos miúdos da escolas do Ajax. Muito cedo começou a jogar futebol e dava-lhe o jeito para ser uma das pequenas estrelas. Fez toda a sua escola na equipa do Ajax e era com orgulho que vestia a camisola branca atravessada pela faixa vermelha, uma camisola com grande significado para a sua família porque já o seu tio, Dirk Schoenaker, fizera esse percurso até à equipa principal. No entanto, as parecenças não iam além do nome e do agregado familiar. O seu tio Dirk era médio e Gerald um raçudo defesa-direito.
Uma coisa que Gerald nunca pôde fazer foi ajudar os seus pais no barco-restaurante. Desde muito pequeno que os pais o tinham habituado a adormecer no barco, enquanto eles arrumavam e preparavam o restaurante para o dia seguinte. Um rapaz muito irrequieto em terra, Gerald acostumara-se àquele balanço para adormecer. O problema é que crescendo, bastava-lhe pôr o pé em cima do barco para ser levado pelo balanço das águas a um sono profundo e retemperador. Isso não viria a ser problema porque, no dia em que completou dezoito anos, Gerald foi convidado a assinar um contrato de profissional com o Ajax.
Nos primeiros anos de profissional, Gerald era presença assídua na equipa secundária do Ajax, mas era claro para todos os observadores que ele iria chegar à equipa principal. E assim aconteceu, aos vinte e um anos estreou-se pelo Ajax, numa época de glória para o futebol holandês que recuperava o título de Laranja Mecânica e ganhava o Europeu de futebol. Para Gerald, esse facto animava-o ainda mais a lutar pela titularidade no seu clube, na esperança de um dia poder chegar à selecção holandesa. Gerald Schoenaker ganhara algum protagonismo com a saída de Sonny Silooy para o Racing Paris, mas essa aventura só durou um ano meio, ao fim do qual Gerald voltou a ser um defesa na reserva.
Apesar de ser um dos favoritos do seu treinador, Louis Van Gaal, Gerald preferiu sair para jogar mais. E pode dizer-se que não poderia ter escolhido melhor. Ao assinar pelo Feyenoord de Roterdão, Gerald Schoenaker foi duas vezes Campeão Nacional, ganhou uma Taça Uefa, três Taças da Holanda e uma Supertaça. Foram dez anos de sucesso, quase sempre jogando como titular da equipa, fosse como defesa direito, fosse como libero, uma posição onde, com a idade, aprendeu a jogar, valendo-se da sua experiência e influência sobre os companheiros de equipa. Um lugar na selecção é que nunca conseguiu, primeiro tapado por uma geração mais velha que ganhara títulos, depois tapado por uma geração mais jovem que cedo começou a dar cartas.
Ainda assim, com a nomeação de Louis Van Gaal para seleccionador, Gerald Schoenaker viria a ter a sua oportunidade. Sempre como libero, primeiro em alguns jogos de preparação e depois nas qualificações para o Mundial de 2002, Gerald era um defesa experiente e tinha, por isso, o favor de Van Gaal. A qualificação não estava fácil, a Holanda perdera já pontos em casa com os principais adversários e toda a experiência era pouca para os jogos finais da qualificação. O mais importante de todos eles disputou-se no Estádio das Antas, na cidade do Porto, no dia 28 de Março de 2001.
A Holanda não podia ter entrado melhor no jogo, com um penalty conquistado por Jimmy a ser transformado em golo aos dezoito minutos e com Patrick Kluivert a aumentar a vantagem aos quarenta e oito. Aos oitenta minutos, Gerald Schoenaker entrou, para defender o resultado. Toda a gente confiava na sua experiência, mas poucos esperavam o que lhe aconteceu a seguir. Aos oitenta e quatro minutos, perante o forte balanço do jogo português, Gerald sentiu uma leve tontura, como se adormecesse, e Pauleta apareceu sozinho em frente ao guarda-redes para marcar o 1-2. Ninguém queria acreditar. Portugal continuou a utilizar o seu jogo típico, fazendo a bola passear de um lado para o outro, como se fosse um barco que se aproxima, lento, da baliza holandesa. Aos noventa e um minutos, bola na área e Gerald, mais uma vez, cai adormecido sobre Pauleta e é marcado penalty contra a Holanda.
O jogo terminou empatado. Gerald não voltou a ser chamado à selecção, que acabou por ficar de fora do Mundial. Toda a sua raça e experiência ficaram manchadas por aqueles estranho adormecimento. A maior parte dos adeptos culpou a sua idade, o facto de ser já um veterano, de lhe faltar pernas para acompanhar o ritmo de jogo. A verdade é que poucos meses depois, Gerald Schoenaker abandonou o futebol e os seus pais se reformaram da sua actividade, vendendo o barco. Uma coisa, na sua família, não voltou a ser feita. Habituar as crianças a adormecer com o balanço de um barco.