quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Terapia de choque em Viena de Áustria


Para todos aqueles que não tenham reparado, acabámos de viver os melhores quinze anos do futebol português ao nível de selecções. Infelizmente, esse maravilhoso projecto começado com “Geração de ouro” queirosiana parece ter entrado na sua fase de declínio, sentindo cada vez crescentes dificuldades em se qualificar para as grandes provas internacionais.

Na história que já começou a ser escrita deste período áureo, muitos avançam com as datas consideradas essenciais para o início desta sucessão de conquistas futebolísticas. A entrada de Carlos Queirós para os quadros da Federação, as vitórias consecutivas nos Mundiais de Sub-20, a Lei Bosman que permitiu que os melhores jogadores portugueses jogassem nas melhores equipas europeias. Mas arriscamo-nos a avançar com a data de 11 de Outubro de 1995 como a mais marcante para o que é, talvez, o maior e inigualável feito mental do futebol em Portugal.

Como em todas as coisas, talvez seja melhor começar pelo princípio.

O primeiro grande feito do futebol português data de 1961 quando, liderado pelo jovem José Maria Pedroto, Portugal organizou e venceu o Torneio Internacional de Juniores da Uefa, uma espécie de antecessor dos Campeonatos da Europa de Sub-18. No entanto, só um dos jogadores dessa equipa (Simões) teria papel de relevo na campanha que levou a equipa portuguesa ao Mundial de 1966, onde obtivemos um, até hoje, irrepetível terceiro lugar. Apesar de um período áureo também ao nível de clubes (o Benfica ganhou duas Taças dos Campeões Europeus e o Sporting uma Taça das Taças), a mentalidade do futebol português parece não ter assumido a condição que os resultados lhe permitiam. E tendo-se seguido uma série de finais europeias perdidas, tal como foi perdida a continuidade na participação nas provas de selecções, Portugal entrou num período negro da história do seu futebol.

Durante as décadas de 70 e 80, Portugal acumulou craques, vários deles com carreiras internacionais, mas a selecção não mais conseguiu que uma outra presença fugaz nos grandes palcos. Humberto Coelho, João Alves, Jordão, António Oliveira, Vítor Damas, Fernando Gomes e Chalana foram-se sucedendo na equipa das Quinas sem deixarem marca maior do que a atingida em 1984, no Europeu realizado em França, logo obscurecida pelo “caso Saltillo” de 1986 e o que se seguiu: uma selecção praticamente sem jogadores de equipas grandes, ferida de morte no mesmo ano em que o Porto conquistava, em Viena, um título europeu de clubes.

Passando por cima da já citada “geração de ouro” que conquistou o mundo na categoria de Sub-20 mas falhou a qualificação para o Euro 92 e para o Mundial de 1994, chegamos então de novo a Viena de Áustria, onde uma equipa local lutava para não cair nos confins do futebol europeu e recebia Portugal, que tentava, sob a liderança de António Oliveira, “conquistar o Campeonato da Europa”. É um facto que este treinador, um mágico de palavras bombásticas, havia entrado a matar na liderança da selecção. Pela primeira vez, a mentalidade era ganhar, levar tudo à frente, em vez de tentar chegar a Europeus e Mundiais defendendo e batendo em tudo o que passasse da linha do meio-campo.

No dia 11 de Outubro de 1995, o jogo empatado depois de um golo de Paulinho Santos, e ainda com vinte minutos para jogar, António Oliveira não quis defender o resultado que lhe permitia levar a decisão para a última jornada da qualificação, em Lisboa. Pôs a mão no ombro do baixinho Dominguez e disse-lhe “Vai lá para dentro ensinar a esses nazis como é que se joga à bola”. A terapia de choque que mudaria a psicologia do futebol português resumia-se toda nessa frase polémica que teria repercussão nos meios de informação por toda a Europa. Portugal agora entrava em campo para ensinar aos outros como se fazia.

Quinze anos passados, quatro Europeus e três Mundiais depois, podemos dizer, sim, nós ensinámos a alguns como se joga à bola. Mas como manter é mais difícil do que criar, sobretudo entre nós, portugueses, uma outra terapia de choque será necessária para passarmos ao passo seguinte. Por exemplo, por uma vez que seja, ganhar.  

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